Cartas de um Cavaleiro Arrependido #2

 

 

 

 

 

 

 

 

Palácio dos corvos, 7 de agosto de 1458

 

Minha profunda paixão,

 

Encontro-me, neste momento, prostrado no gélido chão do meu obscuro castelo, coberto de tristeza e de lágrimas sem fim. A mágoa compromete a minha capacidade de descrição sentimental. O meu coração, por uma só vez na vida, sentiu-se amado, desejado e tudo foi em vão devido à imensa insegurança.

Venho por este meio tentar recuperar a minha dignidade perante os seus olhos. O que eu fiz não tem perdão, mas o seu coração, tão humilde e gentil, consegue perdoar o imperdoável, consegue suportar o insuportável. Enfim, para mim, a sua aprovação seria um tesouro, uma dádiva. E eu, um mísero cavaleiro, triste, destroçado e solitário, não soube aproveitar o que de mais radiante brilhava nos céus.

Naquele momento, o medo preenchia a carne do meu corpo, por isso o meu primeiro pensamento foi fugir. E assim o fiz: fui a correr por entre os ramos das árvores que me lançavam para fora da floresta, para um lugar aparentemente seguro.

Em toda a minha vida, sempre sonhei encontrar o verdadeiro amor, e agora, quando realmente tenho o ensejo de o possuir, desperdiço-o como se fosse uma mera banalidade.

Só peço uma oportunidade mais: um reencontro, um sorriso, outra possibilidade, para que os nossos corações se possam unir.

Com amor, cavaleiro

Benedita Duarte

 

Reino mágico, 21 de março de 1450

 

Majestosa princesa,

Escrevo-lhe esta carta como símbolo do meu infindável arrependimento, por a ter, cruelmente, abandonado naquela mata sombria.

Não me consigo perdoar pelo que fiz. Perdi o maior amor da minha vida. Sua majestade pode não crer na minha palavra, mas eu encontrava-me desesperado. O dia não correspondera às minhas expectativas, a sorte havia fugido de mim, tendo marcado um rasto de profunda tristeza no meu rosto.

Como sua alteza deve imaginar, o céu escurecia e o meu orgulho desabava. Ao ver tamanha beleza como a sua, senti-me impotente e fiquei desorientado, acabando por cometer um erro condenável.

Ainda que o meu comportamento não possa ser entendido, quando referiu que estava enfeitiçada, a minha mente inundou-se de dúvidas, o temor trepou por mim a cima, a brisa dizia-me para fugir e as árvores indicavam-me a saída, como se me quisessem expulsar.

Não imagina o que eu senti, no instante em que a vi no dia seguinte: o meu coração partiu-se, o céu tornou-se ainda mais sombrio e as minhas lágrimas infindáveis mares de mágoa. Até ponderei colocar um fim à minha vida, no entanto, recordando a sua beleza inebriante e o quanto a amo, desisti da minha morte e empenhei-me em tentar conquistá-la.

Espero que entenda que a amo e que este papel reflete o meu arrependimento mais profundo.

Aguardo desesperadamente por uma resposta sua, uma vez que a minha vida não tem rumo sem si.

Assinado:

Cavaleiro

Maria Cerqueira Silva

 

Castelo Encantado, 11 de outubro de 1500

 

Digníssima princesa,

Entre as paredes frias deste castelo sombrio, há um homem sem coração, partido aos pedaços e cinzento como o céu nos dias de inverno.

Princesa, desde o dia em que vos vi pela minha primeira vez, a vossa imagem ocupa toda a área do meu pensamento. Sinto-me angustiado e profundamente arrependido. Os dias já não fazem sentido sem alguém como Vossa Alteza. Tornou-se a minha luz e o meu ar. Sem si, sufoco, definho. Reconheço que lamentar-me não resolverá nada, mas, desde o dia em que a vi partir, encontro-me desesperado… Não sei o que me levou a dizer, naquele dia, que não a levava comigo e a deixá-la, só, na floresta.

Princesa, após tê-la encontrado naquela noite algo no meu coração falou às densas árvores sobre os sentimentos que eu nutria por si. Por sua vez, estas, abrigando o local do primeiro encontro, retorquiram que a Princesa seria para mim o melhor par… Todavia, algo em mim me fez suspeitar de que havia uma maldição que me impedia de vos levar nesse preciso momento.

Por isso mesmo, sinto um remorso enorme que não me deixa nem olhar nem para o espelho.

Rogo a sua majestade um perdão eterno e um amor sem fim.

Aguardo de si a resposta que reparará este coração destroçado!

 

O Cavaleiro

Rita Galeiras

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