Escrito à maneira de Saramago: o “espetáculo do mundo” em pleno século XXI

O dia bem podia ter dado em chuvoso. Não seria isso, contudo, que impediria que o nosso já conhecido, agora insone, hóspede saísse da cama de seu quarto num requintado hotel, somente reservado a quem, como ele, prefere a discrição que o dinheiro pode proporcionar e que respeitaremos, evitando ferir algumas suscetibilidades mais suscetíveis de serem feridas do que outras. De qualquer forma, pormenores como este pouco acrescentariam à narrativa, fornecendo-lhe tão-só um pobre e insípido contexto, Outros apelidá-lo-ão de verosimilhança, Opiniões apenas, sentencia-se.

Ora, se prestou atenção às últimas páginas, sabe o leitor que decorre o ano da graça de nosso, de alguns por empréstimo, senhor jesus cristo 2018, ou seja, o ano em que Ricardo Reis decidiu regressar ao mundo, pelo menos a este que compartilhamos, nunca ninguém soube ao certo quantos existem. Já aprumado, tal o tempo que dispensámos nestas introduções supérfluas, sai o nosso poeta à rua, de pequeno-almoço ainda por tomar, dirigindo-se para as ensurdecedoras carruagens amarelas que galgam freneticamente toda a avenida, embarcando numa com afetação, imiscui-se no meio do preconceituoso e organizado rebanho, é dardejado com rápidos e intrigados e repetidos olhares aos quais sucedem esgares cada vez mais largos de desprezo, pretensa superioridade, em nada disto repara, ostentando um fato simples, mas completo, de corte e acabamento elegantes, em suma completamente desadequado, Passa pela ponte Luís I, aprecia a vista, Não chove, Para onde vais, Saio às dezasseis, entrecortada por múltiplas cabeças, cada qual com a sua voz sobrepondo-se às dos outros. Permanece calado o nosso nervoso médico, porventura nada tem que dizer, não a estes que o rodeiam de certeza, expectante que Lídia compareça. Aliados, anuncia a metálica androide encapsulado dentro das carruagens, e que muito o intrigaria, a ele um homem de ciências, médicas, é certo, mas ciência como as outras, não fosse Ricardo Reis um adepto firme do epicurismo. Sobe nas escadas que se sobem a si próprias, dirige-se à praça, procura a pastelaria mais próxima, Um croissant e um galão, por favor, reparem na entoação, na delicada pronúncia francesa, o empregado mede-o de alto a baixo, É para já, senhor doutor, como adivinhou ele, mais uma vez ninguém sabe. Termina a proverbial refeição, digna, de certo, de poucos mortais tal a majestosa fortuna dispendida, chegará o dia em que alguém se revoltará contra esta exploração dos trabalhadores honestos, e chegará também o dia, se não chegou já, em que toda a revolta será em vão.

Instala-se num banco da larga avenida numa contemplação talvez demasiado literal do espetáculo do mundo, decerto não foi nisto que pensou quando escreveu sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo, se fosse para escrever agora, nada escreveria, neste momento, não pensa em nada, minto, ouve os sinos, Por quem dobram, It tolls for thee, responde-se. Findo o ressoar da décima badalada, volta a sua atenção para um casal de namorados que passa de mãos entrelaçadas, ele púdico, tímido, rubra ela, ele baixo, ela mais alta, que tempos estes, ela de tons encarnados, silvestres, ele pensativo, debatendo-se consigo mesmo se deve ou não declarar o seu amor, esse fogo que arde e que todos veem, salvo aqueles que deviam. O mesmo dilema assola Ricardo Reis.

Agora, Quasimodo toca de novo para Esmeralda, desta vez são onze as badaladas. Observa Ricardo Reis o povo, o frenesim das ruas, sente-se desumano, não da conversa, mas de saber que vem observar gente que de gente pouco tem, bichos atrás da própria cauda, neste regime ditatorial, que, se o de Salazar mão de veludo tinha, este de cetim é. Deixemos, por momentos, o nosso médico e reparemos nestes ratos, perdidos sem o saberem, agarrados às imagens que se mudam nas palmas das suas mãos, cada vez mais rapidamente, cada vez com menos esperança de retorno, desengane-se Ricardo Reis se acreditava que os tempos se tinham mudado, a ditadura mantém-se, muda o ditador, Poético, reflete Reis, numa invetiva a Camões, que se esqueceu, da possibilidade de, com o tempo, as vontades simplesmente desaparecerem. Perdido também ele, Ricardo Reis, nestes pensamentos, eis que chega Lídia com a primeira das doze badaladas, o sol ilumina agora na sua plenitude as avenidas, dissipam-se as nuvens e aparece uma brisa fresca, que poderia ondular a saia azul escura de tão aguardada Lídia, não fosse esta vestir calças, não deu o poeta, absorto que estava nas suas meditações de extrema importância metafísica, conta desta mudança súbita da meteorologia, mas de bom-grado a aceitou, atribuindo-a, se bem que sem nunca o pensar explicitamente, à chegada de quem nós bem sabemos. Bom dia, professor, Bom dia, Lídia, cumprimentam-se formalmente para enormíssima constrição de coração deste que agora descobrimos professor, Como passou, Bem, obrigada, Pensei muito em si, arrepende-se imediatamente Ricardo Reis, sem mais salamaleques e quiçá declarações de amor decidem-se a procurar restaurante, principiam a subir pela Rua Manuel dos Passos, a quem a história, e os habitantes desta cidade, atraiçoaram vilmente, trocando nome com apelido, ora, se primeiro se estranha e só depois se entranha, é natural que nos surja sob o título de Rua Passos Manuel, sem que jamais nos interroguemos quem foi esta figura assim vilipendiada. Viram imediatamente à esquerda, e decidem-se, em curtas sílabas, por um restaurante de esquina ou, mais corretamente, de canto, dada a sua localização geográfica, conhecido de Lídia, escolhem apressadamente, prefere Ricardo Reis prazeres moderados, previsivelmente, fugindo à gastronomia típica desta região, indo encontrar refúgio nas vulgares ementas importadas. Rapidamente se acaba a muda refeição, não fosse constrangedor o silêncio numa situação como este, dir-se-ia que o chef se tinha, de facto, esmerado na confeção das iguarias, Lídia, principia Reis, de forma, aliás, muito pouco subtil, se repararmos com atenção nos seus versos, Eu não posso, limita-se esta a responder, levantando-se, pousa a sua mão no ombro do poeta, ombro como qualquer outro, Desculpe, beija-o na cara, e, não sem antes deixar cair uma lágrima, deixa-o sozinho como sempre esteve até aqui.

Ah lá está mais uma vez Ricardo Reis, inexperiente nas áreas sobre as quais versa, ou o sal não salga ou o a terra, perdão, Lídia, se não deixa salgar, em particular no amor, tão imune ao sal como nenhuma outra terra, num almoço com tão pouco dito, tanto por dizer, tudo foi estranhamente resolvido, ironia dos fados, sem dúvida. Regressa o nosso médico à larga avenida, Quasimodo calara-se, observa agora duas figuras que trocam ocasionais beijos apaixonados, ela de tons silvestres, ele rubro, nenhum deles pensativos, já dito tudo o que havia por dizer, provavelmente com menos palavras ainda do que as que Ricardo Reis trocara com Lídia, para mais tratando-se de um grande poeta. Segue agora o nosso escritor, embora ninguém saiba há quanto tempo não escreve, provavelmente nada mais tem a dizer, se é que alguma vez teve, no encalço deste Baltasar e desta Blimunda, que muitos os há neste mundo, o que compartilhamos, que desaparecem em trocas frequentes de apaixonados carinhos para reaparecem na multidão cada vez mais longe, o passo estugado pelo entusiasmo do amor juvenil. Principiam a cair as primeiras gotas. Rua das Flores, Rua Mouzinho da Silveira, Alto da Sé, ponte Luís I, palmilha a cidade sem destino aparente, sem qualquer pressa, sem sequer reparar na chuva que a todos ensopa e que cada vez cai mais veemente, atravessa até ao meio da ponte e, sereno, contempla o fluir do rio, ininterrupto, agitado somente pelo vento e pela água que cai constantemente nele vinda do céu outra vez escuro, molhando todos à sua passagem, exceto o nosso poeta, ou médico, ou professor, que a profissão exercida pouco importa para o caso, que escapa intocável. Talvez o meu lugar não seja neste mundo, pensa Ricardo Reis, em estranha comunhão, com uma criança, lá longe, num toldo, que o discerne cada vez mais dificilmente à custa da chuva que aumenta, vendo-o, por fim, e para seu grande espanto, desvanecer-se na própria água, como se a sua vida nada mais fosse do que a memória de uma história, só ele sabe se de amor, contada por um idiota, cheio de som e fúria, sem significado.

Rui Barreira Morais Pinto, 12.ºF

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