Barroco – literatura e pintura em diálogo

A pintura barroca vigorou na Europa, especialmente no séc. XVII, e é característica dos regimes absolutistas e contrarreformistas.

Esta vertente artística caracteriza-se pela aposta nas cores, no realismo, nos volumes, nos jogos de luzes (oposições entre o claro e o escuro e iluminações projetadas) e por tendências pictóricas e simétricas, com o objetivo de seduzir, captar a atenção. As pinturas barrocas assumiam tendencialmente visões teocêntricas ou antropocêntricas, sendo que, nos países protestantes da Europa Central e do Norte, se representavam principalmente temas do quotidiano e, paradoxalmente, nos países do Sul, católicos e contrarreformistas, as obras abordavam temáticas religiosas, como é o caso da obra em análise.

Contudo, o estilo Barroco não se manifestou apenas nas artes visuais. Por isso, é possível estabelecer uma analogia entre a pintura e a literatura barrocas, pondo em evidência os principais traços de estilo característicos desta corrente literária. Tome-se como exemplo a antítese, que, na literatura, aparece motivada pela contradição do homem barroco, pelo seu dualismo, revelando o contraste que o escritor consegue ver em quase tudo. Na pintura, esta dualidade é também posta em evidência pelos contrastes entre o escuro e o claro. Numa segunda análise, podemos também destacar a hipérbole, que corrobora a ideia de grandiosidade própria da escola literária barroca e que, nas pinturas, se assume num extremo realismo e abuso de cores e de sentidos. Por último, repare-se na personificação de seres inanimados para dar mais dinamismo às obras literárias e que acompanha o teor antropocêntrico das representações visuais.

Tendo em conta a pintura O Sacrifício de Isaac de Caravaggio, é notório o interesse em representar artisticamente os episódios descritos na Bíblia, devido à urgência do homem barroco em encontrar e alcançar a salvação no Reino do Céu. Perante isto, a expressividade dada pelo autor à sua tela enaltece o momento representado e aprofunda a importância do episódio bíblico. De forma a acrescentar dramatismo à representação artística, Caravaggio pinta um momento exato da ação, dando a ideia de “congelamento” da imagem. Assim, veja-se como o momento da interpelação do anjo, no instante em que Abraão está preparado para sacrificar o filho, Isaac, como prova da sua obediência a Deus, é pintado com o intuito de transmitir o conceito de precisão temporal. Para além disso, Caravaggio retrata rigorosamente o ondulado das vestes, obtendo o realismo cinético da chegada do Anjo. O Anjo não puxa o braço de Abraão, apenas o prende, pelo que o mesmo, devido ao impetuoso movimento, soltará o punhal a usar na morte de Isaac. É igualmente crucial realçar o contraste entre a brutalidade das mãos de Abraão, ao prender o pescoço do filho totalmente indefeso, e o suave toque do Anjo que é suficiente para impedir a fatalidade. Todos os gestos do quadro estão perfeitamente estudados e combinados.

Caravaggio, um dos pintores mais notados em Itália, foi considerado o primeiro grande representante do estilo Barroco.

 

Ana Lia Ferreira e Matilde Vicente, 11.º Ano C

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