“Liebestraum No.3”, de Franz Liszt

 

 

Franz Liszt

Franz Liszt nasceu a 22 de outubro de 1811 em Doborján, na Hungria, e morreu a 31 de julho de 1886, pobre e solitário, na Alemanha. Começou a estudar música muito novo, acabando por, mais tarde, ser considerado o maior pianista da a sua época. O seu pai, Ádám Liszt, tocava violino, por isso, foi ele que o conduziu ao mundo da música. Com oito anos, Liszt compôs as suas primeiras peças e, aos nove, deu o seu primeiro concerto, surpreendendo a população húngara devido às suas capacidades. Quando era jovem, teve Czerny como professor de piano, adquirindo, assim, muita técnica e perícia.

Os desgostos amorosos que sofreu na vida serviram muitas vezes de inspiração. Os principais são Marie d’Agoult, mãe dos seus três filhos, e a princesa Carolyne de Sayn-Wittgenstein, sua última amante. Toda a dor que sofreu devido ao amor tornou-o num dos melhores pianistas da era Romântica, sendo, também, esta uma das razões pela qual os seus relacionamentos não funcionavam.

Liszt compôs diversas obras que, ainda hoje, são incluídas no reportório de vários pianistas famosos, desde a Sinfonia de Dante e Sinfonia de Fausto a Liebestraum e Rapsódia no.2.

Liebestraum («Sonhos de amor») foi composta em 1850, inspirada em poemas escritos por Uhland e Freiligrath, e é constituída por três peças. Liebestraum no.3 é a peça mais apaixonante e melancólica do grupo devido ao poema que lhe deu origem que visa transmitir a mensagem de se amar enquanto é possível. Quando estava a escrever esta peça, Liszt estava apaixonado pela princesa Carolyne de Sayn-Wittgenstein e angustiado pela morte de seu amigo Frédéric Chopin, por isso a música tem o amor e a morte evidentes.

Abordagem formal da peça

De acordo com a perspetiva objetivista, Liebestraum no.3 deve ser considerada arte devido à qualidade de técnica e complexidade na peça. A perícia requerida por esta peça é imensa e é necessário para o pianista iniciante trabalhar anos para desenvolver a destreza dos dedos, a interpretação e a musicalidade até que possa, finalmente, tentar tocar esta música.

Primeiramente, Liszt introduz um tema principal que nos acompanhará ao longo da obra sofrendo algumas variações, mas sempre bastante patente. A peça está escrita em Lá b Maior e a sua dinâmica inicial é piano (doce). Ao longo dos primeiros momentos, podemos ouvir o tema principal repetido três vezes, nunca exatamente iguais, até que esta quietude é substituída por uma cadência[1] que nos deixa ansiosos sobre o rumo que a peça tomará. Liszt apresenta muita técnica e mestria no desenvolvimento desta cadência que nos leva a entrar numa parte diferente da música, com uma mudança de tonalidade para Si Maior.

Assim, seguimos para outra variação do tema principal que vai crescendo lentamente, preparando-nos para o auge da peça pautado por acordes e uma dinâmica forte. Aqui existe uma nova mudança de tonalidade para Dó Maior e o tema principal é ignorado, sendo o seu lugar tomado por oitavas bastante fortes na mão direita e harmonia na mão esquerda. No entanto, acontece outra mudança nesta parte da obra: a tonalidade altera-se para Lá b Maior. Agora, Liszt aumenta a velocidade e conduz-nos até ao clímax da peça seguido por uma outra cadência, bastante técnica, que devolve a dinâmica e o tema iniciais da obra. De volta ao primeiro tempo, podemos ouvir outra vez o tema principal e as suas variações que vão diminuindo, preparando-nos para o final da obra. Por último, a dinâmica diminui, aumentando somente num acorde, voltando, depois, para o pianíssimo nos acordes finais.

Após esta avaliação da peça, posso concluir que Liebestraum no.3 é arte devido a toda esta técnica, complexidade e dificuldade que apresenta e que tornam a obra única.

No entanto, fica refém da perceção de quem a ouve. Segundo a perspetiva subjetivista, a peça em análise é arte, visto que sobreviveu ao teste do tempo, perdurando desde 1850 até à atualidade.

Além disso, Liszt consegue, através da música, transmitir um sonho de amor. Na primeira parte, o pianista revela a angústia que sente com a perda do amor da sua vida e avisa as pessoas para amarem enquanto é possível, pois nunca se sabe quando é que tudo vai acabar. Neste excerto, podemos denotar a sua tristeza através das notas principais serem mais graves do que no resto da peça, transmitindo, assim o que Liszt sente. De seguida, após a primeira cadência, somos conduzidos para um estado de sonho, onde nos é demonstrado como era a vida antes do amor morrer, repleta de alegria e felicidade, mas sempre com a dor presente, já que não é real. Aqui, encontramo-nos animados e exaltados devido aos acordes que ouvimos, mantendo-nos sempre num estado de alerta para o que está a vir, o acorde do auge da obra. O tema principal é tocado sempre com notas mais agudas, visto que estamos no sonho feliz do pianista. Na terceira secção, Liszt retoma o mesmo discurso que na primeira, ainda demonstrando tristeza e alertando os outros, mais uma vez, para amarem, pois ele agora sofria sem o seu amor. Agora, as notas principais são tocadas numa oitava acima, pois a dor do pianista já está a começar a ser esquecida. No fim, a obra é finalizada por um grupo de acordes que indicam que ele vai seguir com a sua vida, ultrapassando a dor toda que sofreu, vítima do amor.

Desta forma, a capacidade de Liszt transmitir estes sentimentos através de uma música deve ser considerada arte, visto que são emoções que experimentamos durante a nossa vida resumidas a um conjunto de notas.

Apreciação pessoal da obra

Liebestraum no.3 de Franz Liszt é uma manifestação do significado de se ser humano, na medida em que visa transmitir o amor.

Então, como o Homem é um animal racional, é capaz de sentir amor, uma característica exclusiva dos humanos. Liszt, ao compor sobre esta emoção, está a mostrar um dos significados de nós sermos como somos. Como somos capazes de amar, isso faz-nos únicos e é uma das razões pela qual somos racionais, para sermos capazes de amar os outros.

Para além disso, um dos nossos privilégios enquanto humanos é sermos inteligentes. Nesta peça, Liszt mostrou a sua inteligência, uma vez que, com apenas o recurso a sete notas, ele criou algo extraordinário que é capaz de transmitir amor e dor. Com uma música ele demonstrou tudo o que podemos sentir numa vida, cativando sempre o ouvinte em todas as notas e em todas as pausas, utilizando todos os seus atributos quer técnicos quer humanos para tocar uma melodia com tanto sentimento. Cada dedilhar, cada acorde que ele toca exibe um novo sentimento e quer a melodia, bem como a harmonia, se completam perfeitamente, nunca deixando o ouvinte se abstrair daquilo que ouve e sente. Liszt consegue mostrar o seu coração ao mundo e fazer-nos atravessar um tumulto de emoções com apenas uma música de cinco minutos onde ouvimos o som melodioso de um piano.

[1] Cadência: parte muito técnica utilizada para finalizar uma frase musical e iniciar outra.

 

Bianca Alves, 10.ºA

 

 

 

 

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