“O Cérebro”, de David Eagleman

De que precisa o nosso cérebro para funcionar normalmente? Para além dos nutrientes que ingerimos nos alimentos, do oxigénio que respiramos, da água que bebemos, há algo imprescindível para a manutenção de um intelecto saudável: a interação humana. É este um dos principais temas abordados pelo escritor e neurocientista David Eagleman ao longo da sua obra O cérebro.

Ao longo da infância, o cérebro, através de uma estratégia inteligente para se adaptar às particularidades do ambiente em que vive, molda-se ao mesmo. Quer isto dizer que, se uma criança for desprovida de qualquer estímulo sensorial, futuramente, lidará com graves distúrbios de aprendizagem. Nesta obra, o autor faz referência aos orfanatos da Roménia na década de 1960, onde, devido ao excesso de órfãos, as crianças cresciam sem que lhes fosse demonstrado qualquer tipo de afeto. Ora, após diversos estudos, foi possível confirmar que estas pessoas dotavam de um baixo quociente intelectual e emocional.

Uma outra evidência da importância das outras pessoas para o desenvolvimento de um cérebro saudável é a empatia. O nosso cérebro é extremamente eficaz a descodificar as emoções daqueles que nos rodeiam. Na obra em análise, o autor refere uma experiência que conduziu, na qual foi possível demonstrar que, quando nos apercebemos do estado emocional de alguém, os nossos músculos faciais copiam, subtil mas automaticamente, as expressões dessa pessoa. Isto comprova, mais uma vez, que a nossa rede neural está intrinsecamente ligada à dos outros.

O autor debruça-se, em diversos momentos, sobre o sofrimento psicológico causado pela privação social. Veja-se o caso de pessoas que são sujeitas ao regime de prisão solitária: nos primeiros tempos, estas afirmam ficar reduzidas a um “estado animal” que, eventualmente, acaba por se transformar num “estado mais vegetativo”. Ou seja, a mente destes prisioneiros, desprovidos de interação social, torna-se lenta e os pensamentos, repetitivos.

Para além de todos estes tópicos, é dada uma especial atenção à dor da exclusão social. Neste âmbito, as experiências realizadas revelam algo extraordinário: quando somos excluídos, várias regiões relacionadas com a matriz da dor são ativadas. Ou seja, o autor alega que a rejeição social é tão relevante para o cérebro humano que literalmente magoa.

Em suma, é legítimo afirmar que, nesta obra, é feita referência reiterada à necessidade de interação humana para o desenvolvimento de uma mente saudável. Note-se que o cérebro tem sido tradicionalmente estudado de forma isolada, mas esta abordagem ignora o facto de que, nas palavras do autor, “Somos criaturas profundamente sociais.”.

Matilde Ferreira, 10.ºA

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