Uma lente para o mundo ou o reflexo do ser

Numa época em que as pessoas andam à velocidade da luz, executam múltiplas tarefas simultaneamente e iludem o seu cansaço com cafés e bebidas energéticas, é fundamental preservarmos a nossa individualidade e libertarmo-nos da frieza calculista da sociedade.

Sempre tive uma paixão pela fotografia, mas a chama desta forma de arte avivou-se recentemente. Por isso, senti logo o entusiasmo a correr pelas minhas veias, quando, a somar ao reflexo da luz do mar na minha câmara tão antiga como o universo, fui encadeado pelo brilho que as lentes de duas outras espelhavam. Após enquadrar a fusão entre o Sol fundente e o azul do oceano, espreitei pelo visor da máquina e fui banhado por uma onda de êxtase. Foi como se todo o escarlate que tingia o céu tivesse trespassado pelos meus olhos e bailado pela minha mente enquanto sussurrava os meus desejos mais profundos. Não deixa se ser intrigante que tenha sido uma cor a dizer-me quem sou, de onde venho e para onde vou, não através dos meus olhos, mas sim de vidros meticulosamente esculpidos. É essa a capacidade da fotografia que mais me espanta e que mais me assombra. Na verdade, apercebemo-nos da inevitabilidade da morte face à imortalidade do fotograma. Mais impressionante é a capacidade desta arte de fazer algo que vai contra a nossa intuição, parar o tempo. É como se dissesse ao Homem moderno “stop”, ou seja, para, olha em teu redor, ouve a respiração do mundo, sente o pulsar da vida, saboreia o momento único que estás a viver. Curiosamente, aprendemos mais sobre nós próprios se tivermos esta capacidade de abrandar o passar do tempo e de perceber pequenos detalhes. Isto permite que possamos realmente desfrutar do presente.
No seguimento de pressionar o disparador, os ponteiros do relógio cessaram o movimento. Enquanto envergava a câmara, eu e o mundo éramos um só. Estranhamente, não foi esse episódio utópico que mais me marcou, mas sim o largar da câmara, a corrida pelos grãos de areia humedecidos pelo vasto manto rubro e o sentido abraço que dei às minhas amigas. Afinal de contas, sou humano, efémero e não uma máquina que para o tempo. De que serve viver se não podemos partilhar com os outros a nossa realidade?

Francisco Dias, 11º A

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